· Diego Arcanjo Campos · analise · 6 min de leitura
Segurança Pública e eleições: sintomas de fragilidade democrática no Brasil
Como as operações policiais e o medo do crime se relacionam com o comportamento eleitoral

Diego Arcanjo Campos, Mestrando em Ciência Política (IESP-UERJ)
A segurança pública no Brasil e na América Latina é um dos desafios institucionais e sociais mais complexos da atualidade. Historicamente marcada por abordagens reativas e pautadas no confronto direto, a gestão da ordem pública transita permanentemente entre a exigência de redução dos indicadores de criminalidade e a necessidade de assegurar os direitos fundamentais do cidadão. Passadas as eleições gerais que ocorreram no dia 4 de outubro, gostaria de abordar uma relação que é de extrema importância para o cidadão no cálculo que envolve o voto, ou seja, a relação entre segurança pública e comportamento eleitoral.
A “Operação Contenção”, realizada em 28 de Outubro de 2025, nos Complexos do Alemão e da Penha (RJ), foi classificada pelo Dicionário de Favelas Marielle Franco como a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro. A operação, que ocorreu ainda durante a gestão do ex-governador Cláudio Castro, choca por seus números: foram 121 mortos e quase uma centena de prisões. A partir desses números, duas questões precisam ser destacadas. A primeira delas é que uma operação dessa envergadura impacta negativamente a população local, que já é vítima da vulnerabilidade socioeconômica e da gestão narcotraficante sobre o território, ao retirar deles o direito à circulação no território, e o direito de acesso aos poucos dispositivos onde o Estado se faz presente nessas localidades, como postos de saúde e escolas. A segunda questão diz respeito à ineficácia das chamadas mega operações (Barbosa et al., 2025; Deole, 2018; Monteiro e Rocha, 2017).
Não é de hoje que a literatura das ciências sociais aponta a ineficácia das operações de repressão ao narcotráfico feitos com base no paradigma de Guerra às Drogas (Ferreira, 2020; Labrousse, 2010; Rodrigues,2012), no entanto, desde os anos 1980 com a ascensão das principais organizações narcotraficantes no Brasil, a tática permanece a mesma, e o crime organizado não apenas cresceu, mas se complexificou economicamente, diversificando suas formas de obtenção e lavagem de dinheiro, como foi observado a partir da operação interagências Carbono Oculto, em agosto de 2025, além de financiar braços atuantes na política, como exemplificado no caso dos ex-deputados da ALERJ Rodrigo Bacellar e TH Jóias.
É comum entre a população carioca a percepção de que as mega operações aconteçam às vésperas de períodos eleitorais, o que é confirmado em estudo da agência Rede de Observatórios de Segurança, que registrou alta de 18% nas operações policiais no segundo semestre de 2022, às vésperas das eleições. O mesmo estudo verifica a ocorrência do aumento no número de operações não apenas no Rio de Janeiro, mas também nos estados da Bahia, Pernambuco, Ceará e São Paulo. Essas operações, realizadas sob o governo de candidatos à esquerda e à direita do espectro político, funcionam como um aceno à população na tentativa de “mostrar serviço”, e refletem diretamente nas pesquisas sobre intenção de voto. No Rio de Janeiro, antes das operações na gestão Cláudio Castro, o ex-governador Wilson Witzel fez uso da mesma tática (Oliveira, 2022; Ramos, 2022).
Buscando entender tal fenômeno, algumas revisões de literatura nos ajudam a ter uma melhor compreensão do cenário. Mais além, literaturas relacionadas ao estudo da Guerra às Drogas, securitização e militarização da política também auxiliam a ter uma compreensão mais ampla do que leva ao aumento das operações policiais nas proximidades do período eleitoral (Hoecker e Verdes-Montenegro,2023).
De acordo com Cardoso e Borba (2022) a experiência concreta da violência e o medo do crime, experiências próximas mas não diretamente relacionadas, constituem terreno fértil para o populismo penal e discursos autoritários, exercendo impacto no comportamento eleitoral e na saúde da democracia. A revisão realizada pelos autores aponta para efeitos negativos da vitimização e do medo do crime na legitimidade democrática latino-americana.
Ainda nesse estudo, os autores afirmam que o crime pode interferir nos resultados das eleições de modos distintos: através da decisão de comparecimento ou abstenção no pleito; os elevados níveis das taxas de crime, vitimização e insegurança, funcionam como combustível para o apoio a plataformas que defendem políticas alinhadas ao populismo penal; e ainda a vitimização e a insegurança afetam o apoio ao incumbente na tentativa de reeleição. Compreender esses resultados importa não apenas no que diz respeito ao apoio e confiança popular às instituições democráticas, mas também para o entendimento de uma das causas pelas quais as políticas de segurança pública, no momento, repetem o mesmo padrão de ação, e atentam para o uso indevido do poder de polícia por parte do poder político.
A literatura sobre a relação entre política e segurança pública tem espaço e relevância para ser expandida, e é necessário que seja. Cabe nessa agenda de pesquisa, por exemplo, o acesso à segurança e o acesso à justiça como fatores que também estão implicados na tomada de decisão do eleitor. E essa é uma agenda que interessa não apenas à academia, mas igualmente ao cidadão brasileiro. A segurança pública é um direito de todos, e a compreensão da relação entre esse direito e o voto é essencial para a tomada de decisão do eleitor na escolha de seus representantes. Desenvolver essa agenda de pesquisa e fomentar o debate público ao redor dela evoca um dilema de interesse popular: como lutar contra o crime organizado e preservar direitos políticos e civis que são essenciais à democracia?
Referências
BARBOSA, Rogério Jerônimo et al. Educação sob cerco: impactos do controle territorial do tráfico e da milícia sobre o desempenho escolar. Estudos Avançados, v. 39, p. e39115351, 2025.
DEOLE, Sumit S. Human capital consequences of violence in schools: Estimating the impact of violence in schools on education outcomes in Brazil. Review of Development Economics, v. 22, n. 1, p. 287–310, 2018.
AÇÕES POLICIAIS têm alta com proximidade das eleições 2022. Rede de Observatórios da Segurança, 18 ago. 2022. Disponível em: https://observatorioseguranca.com.br/raio-x-das-acoes-de-policiamento-alta-no-segundo-trimestre-com-proximidade-das-eleicoes-2022/. Acesso em: 14 set. 2026.
FERREIRA, Gabriela da Silva. Economia política das drogas: uma análise da geopolítica do tráfico da cocaína. 2020.
HOECKER, Marcos Robledo; VERDES-MONTENEGRO, Francisco J. (Eds.). Militarización, militarismo y democracia: ¿nuevas tendencias en América Latina? Madrid: Fundación Carolina, 2023.
LABROUSSE, A. Geopolítica das Drogas. São Paulo: Desatino, 2010.
MONTEIRO, Joana; ROCHA, Rudi. Drug Battles and School Achievement: Evidence from Rio de Janeiro’s Favelas. The Review of Economics and Statistics, v. 99, n. 2, p. 213–228, 1 maio 2017.
OLIVEIRA, Aercio Barbosa de. No Rio, violência urbana em ano eleitoral. FASE, 19 jan. 2022. Disponível em: https://fase.org.br/pt/artigos/violencia-urbana-em-ano-eleitoral/ Acesso em: 22 set. 2026.
OPERAÇÃO Carbono Oculto: revelações e desdobramentos. Transparência Internacional - Brasil, 10 fev. 2026. Disponível em: https://transparenciainternacional.org.br/posts/operacao-carbono-oculto-revelacoes-e-desdobramentos/. Acesso em: 14 set. 2026.
OPERAÇÃO Contenção - Análise da operação policial mais letal da história do estado do Rio de Janeiro. In: DICIONÁRIO de Favelas Marielle Franco (WikiFavelas). Rio de Janeiro, 2026. Disponível em: https://wikifavelas.com.br/index.php/Opera%C3%A7%C3%A3o_Conten%C3%A7%C3%A3o_-_An%C3%A1lise_da_opera%C3%A7%C3%A3o_policial_mais_letal_da_hist%C3%B3ria_do_estado_do_Rio_de_Janeiro. Acesso em: 14 set. 2026.
RAMOS, Silvia et al. Raio-x das ações de policiamento. Rio de Janeiro: Rede de Observatórios da Segurança/CESeC, 2022.
RODRIGUES, T.. Narcotráfico e militarização nas Américas: vício de guerra. Contexto Internacional, v. 34, n. 1, jan. 2012.
SAIGG, Mahomed; MARTINS, Marco Antônio. Rodrigo Bacellar é preso novamente pela Polícia Federal. G1, Rio de Janeiro, 27 mar. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/03/27/rodrigo-bacellar-e-preso-pela-policia-federal.ghtml. Acesso em: 14 set. 2026.
Foto: Acediscovery, via Wikimedia Commons, licença CC BY 4.0. Imagem adaptada para o cabeçalho.
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